quinta-feira, outubro 26, 2006

sound of silence

Ouço um grito lá longe, paro, desligo o som, procuro saber de onde vem. Não consigo discernir, estaria eu com labirintite? O som é agudo, certamente de alguma mulher, indago o que estaria a acontecer... penso em mil coisas, de repente o grito tem ares de desespero. Pode ser que ela tenha caído em si numa realidade medíocre absurdamente humana, mas também pode ser que esteja sendo violentada, já que o som vem da rua, não de alguma casa, vem bem do meio da rua, tenho certeza.
Odeio gritos, mesmo os mais sinceros, e não obstante, começo a odiar aquela mulher, sem ao menos ter dó pelo que ela poderia estar passando, vai ver é uma crise existencial e ela fez o que todos temos vontade, sair correndo pelas ruas, loucos, gritando toda nossa dor como se não existisse nada nem ninguém, principalmente quando o assunto é silenciá-la.
É madrugada, e os gritos ecoam ainda mais, não há tanto barulho de vida, aquela coisa chata do cotidiano, que faz-nos enxergar sem brilho e comer sem degustar. Enquanto isso ela grita, mas o que há com essa mulher?? Deixa eu parar até de pensar pra ver se identifico e assim, consigo ajudar ou dormir, acho que a falta de diretório está me angustiando...
silêncio total, até a respiração está superficial, nada pode atrapalhar afinal de contas. Os gritos se tornam mais e mais imersos em algo, soa familiar, reconheço o som mas não consigo identificar, espere... estão se tornando mais profundos e ensurdecedores, viriam eles de mim? Isso explicaria o fato de ninguém estar se manifestando, afinal, é madrugada...
- Os gritos são meus, céus, os gritos são meus!
Grito silenciosamente para que ninguém ouça, por tudo que eu sou, por tudo que diverge do que queria ser, por aquilo que digo e não entendem, pelo que sinto e que é só meu. Grito como uma forma de voltar a atenção para mim mesma, já que não espero que alguém pare para fazê-lo. Grito em silencio para não despertar ninguém, não há a quem possa clamar por ajuda, the lunatic is in my head.

2 comentários:

Mobbe disse...

Esse grito assusta muito mais que o do cinema. Sei pq em algum momento do dia eu tenho esse ímpeto.

Gostei do texto.

Beixxx

Anônimo disse...

Desci e li mais alguns textos.

Essa densidade que vc trata a realidade tem consumido vc. O bom disso tudo é que vc pode pôr para fora escrevendo. O ruim é que a realidade é constante, não deve ser domada pq é impossível. Entretanto é preciso esquecê-la às vezes e fazer desse ser um pouco mais humano.

A vida precisa de um pouco de poesia, de lirismo. Concordo. Porém é preciso ser leve, cherrie... "leve como um passeio no parque" recorrendo à sua prosa.

Amo sua narrativa, cada gesto e cada palavra proferida. Permita-se. Sometimes.